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Jorge Guinle – Belo Caos
Por uma questão de justiça poética, já que o artista partiu tão cedo, as telas de Jorge Guinle decidiram permanecer jovens. Fisicamente até, elas passam a impressão de tinta fresca. Irradiam sempre a mesma vontade de pintar, a mesma vontade de viver, continuam enfim a provocar, a agradar e a desagradar, sobretudo nos estimulam, abrem nosso apetite pelo futuro. Passados vinte anos de seu desfecho prematuro, a obra de Jorge Guinle tornou-se quase sinônimo de pintura brasileira contemporânea. Como nenhuma outra talvez, ela traduz à perfeição a forma convulsa do mundo da vida atual - Belo Caos.
Chega o momento inevitável em que o texto crítico deveria lamentar a ausência até aqui de uma única retrospectiva póstuma do trabalho de Jorge Guinle. Depois de duas décadas, mais de vinte e um anos. E, no entanto, não seria de todo justo fazê-lo - uma vez ao menos, valeu a pena esperar. As circunstâncias dessa primeira retrospectiva revelam-se por demais felizes, na verdade, têm algo de mágico. Primeiro, é claro, porque ela ocorre na casa de Iberê Camargo e assim propicia o encontro histórico entre duas obras que, com todas as suas diferenças, guardam afinidades significativas. De fato, vistas em certa perspectiva, constituem um Brasil moderno à parte. Uma constelação só de duas estrelas, e ainda assim, que espetáculo!
Por vocação e temperamento, eternos estrangeiros à razão estética construtiva que seduziu e orientou a maioria de nossos principais artistas modernos, Iberê Camargo e Jorge Guinle entregaram-se inteiros à voracidade expressiva da pintura. De maneiras bem diversas, não houvessem três gerações a separá-los, ambos viviam pintura com tal intimidade que tornavam indistinta a fronteira entre uma e outra.
Tentadora que seja a tarefa, obviamente não é este o lugar para empreender uma investigação teórica comparativa entre essas formidáveis poéticas modernas brasileiras. Sem pretensões, a título de breve e necessária introdução, basta à curadoria evocar o ato físico da pintura, notoriamente crucial no caso desses dois passionais. Em transe, Iberê enfrentava a tela na vertical, prêsa ao cavalete ou ao muro, uma longa e emocionante batalha que envolvia a aplicação e a remoção incessantes de camadas e camadas de gloriosa tinta por parte do inspirado e assoberbado "pintor e despintor". Por sua vez, Jorge Guinle pintava a tela no chão, a girá-la casualmente em todos os sentidos, ora relaxado, ora frenético, como se já não fosse possível, nem desejável, acabar o quadro. O Eu lírico "existencialista" cavava e escavava a tinta até encontrar o fundo ancestral do Ser e trazê-lo à superfície patente da tela; já o colorista endiabrado, o virtuose pós-pop, que não conseguia deixar de sê-lo, errava ao acaso pelo perímetro do quadro, com alegre desenvoltura ou angústia manifesta, na ânsia de concatenar achados e impasses contraditórios. De todo modo, bem, sempre haveria a próxima tela.
A conjunção favorável que cerca a retrospectiva de Jorge Guinle deve-se também, evidentemente, à realidade material e institucional da recém - inaugurada Fundação Iberê Camargo. Autêntica iniciativa pioneira, a primeira no país a atender as expectativas do que venha a ser um espaço de arte numa grande cidade de uma democracia contemporânea. A começar pelo prédio de Alvaro Siza, capaz de responder à demanda pública da arte atual e suas exigências técnicas e estéticas. Jamais tantas telas e desenhos de Jorge Guinle foram reunidos num mesmo lugar, jamais desfrutaram tais condições ótimas para enfrentarem, finalmente, o teste do real.
Somente agora, a rigor, confrontam a dimensão pública que passaram a vida a perseguir. Se houve um mérito incontestável na curta e fulgurante trajetória artística de Jorge Guinle, foi o de promover, de imediato, um efeito liberador -- extrovertida, dessublimada, ela vencia por dentro o intimismo persistente que inibia a pintura moderna brasileira. E o fazia graças à sua irreprimível mobilidade visual, ao livre trânsito pela tradição moderna, ao contato espontâneo e nada livresco com suas obras. Havia sim, é certo, a nativa familiaridade francesa com essa tradição; também uma típica desinibição ianque que assimilava de passagem, sem cartesianismo, opostos e contrários inerentes à conturbada vida cultural contemporânea. O produto final, contudo, era brasileiro, dispunha das vantagens compensatórias do outsider: nem a força de inércia da tradição, nem a competição estressante, tolhiam os movimentos desse pintor que podia evocar Matisse e de Kooning despreocupadamente enquanto atacava a tela por todos os lados na incerteza de resolvê-la, mesmo porque resolvê-la podia significar desmobilizá-la. Sobrava porém energia, vontade de pintura, a transformar em matéria estética urgente a crise irrevogável do universalismo Iluminista e o fim das utopias. Junto a outros artistas à época emergentes, Julian Schnabel, Anselm Kiefer e Georg Baselitz eram muito menos pares do que estímulos sensíveis e intelectuais, redesenhavam um mapa da contemporaneidade onde a pintura voltava a ser relevante. Em comum, havia um desafio: a revitalização do instinto de pintura. E a esse desafio não falhou o instinto de pintor de Jorge Guinle: vinte anos depois, suas telas se parecem cada dia mais consigo mesmas.
Em contexto tão auspicioso, impunha-se à curadoria dar sequência ao processo histórico e cultural que tem início com a aventura moderna incomparável de Iberê Camargo, ainda nos anos trinta do século passado, alcança a fluência cosmopolita de Jorge Guinle nos anos oitenta do mesmo século, e vê-se agora repotencializado pela presença atuante da Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre. Daí o imperativo de convocar as gerações mais novas, chamá-las a participar desse processo em aberto por meio de releituras críticas.
E foi logo um artista plástico, Nuno Ramos, dotado também, é verdade, de consideráveis recursos literários, o primeiro a incorporar à reflexão crítica sobre Jorge Guinle a questão de seus títulos divertidos, tocantes ou estapafúrdios, e que, por isso mesmo, formam parte integrante da linguagem híbrida e irreverente de sua pintura. Títulos-pinceladas, aleatórios, certeiros, iguais em suma às manobras intempestivas que deflagram o belo caos de seus quadros. Através da leitura do texto de Tiago Mesquita, por outro lado, constatamos a densidade histórica que uma obra, consumada em menos de uma década, vai demonstrando, como ela incita o jovem teórico a repassar momentos decisivos da arte moderna no esforço de apreendê-la com olhar atual. Ficam para trás, e bem distantes, os clichês de brasilidade quando procuramos conceituar a experiência multifacetada, no final das contas tão nossa, da pintura de Jorge Guinle. Ela abre um mundo à nossa frente, fala de uma vida intensa que merece ser vivida.
Ronaldo Brito e Vanda Klabin
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