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  Iberê Camargo: um exercício do olhar

"Viver é andar, é descobrir, é conhecer. No meu andarilhar de pintor, fixo a imagem que se me apresenta no agora e retorno às coisas que adormeceram na memória, que devem estar escondidas no pátio da infância".
Iberê Camargo

A arte, como observou o artista suíço Paul Klee, não reproduz simplesmente o mundo visível. Fiel à sua vocação inquieta e investigadora, ela torna visível aquilo que permanece escondido sob a camada das aparências, o conteúdo sensível dos seres e das coisas. Existe, assim, algo do que chamamos real que, por vezes, nos escapa, mas do qual nós, ironicamente, não podemos escapar.

A obra de Iberê Camargo é povoada por um imaginário oriundo de suas memórias de infância e da vida à sua volta. Ele era um observador atento do homem e das armadilhas que esse se impõe. O caráter trágico da existência humana, refletida na impotência ante o tempo e o peso do passado, era perceptível para ele em seus carretéis de madeira, nas alamedas desertas, no vagar das pessoas na rua, nos ciclistas do Parque da Redenção ou na simulação vazia dos manequins de vitrine. Sua energia criativa era voltada para esse desafio de tentar expressar a singularidade de um fato, a pureza às vezes rude de uma sensação, de um sentimento: "O pintor é o mágico que imobiliza o tempo" , afirmava o artista, um mágico que brinca de eternizar as cenas de uma vida que segue sem mestre.

A formação do olhar
Iberê Camargo um dia re-descobriu para si os carretéis de costura, velhos conhecidos seus de suas brincadeiras de infância. Esses pequenos objetos de madeira transformaram-se num dos principais temas de sua obra a partir da década de 1960. Ele os fez reviver por intermédio de um olhar criador em busca do encantamento que animava seus dias de guri - um "obscuro desejo de permanência" que aproxima o trabalho da memória ao trabalho da arte. Muitos já compararam o olhar do artista ao olhar da criança que vê o mundo pela primeira vez, que não tem nome para as coisas, apenas percepção e sensação. O exercício do desenho é em grande parte responsável pelo desenvolvimento dessa forma de olhar que nos obriga a reexaminar as coisas em sua estranheza primordial.

O desenho foi para Iberê o meio de pôr à prova seu modo de olhar o mundo. Pintor por excelência, ele sempre fez uso do desenho como forma de registrar suas idéias, de fixar uma cena na rua ou de aprimorar um projeto de pintura ou de gravura. Como desenhista, ele dominava com maestria todo o repertório acadêmico que fazia parte da formação de um artista à sua época: são paisagens dissecadas a lápis ou a pincel, figuras desenhadas com um olhar atento e perscrutador.

Com o passar dos anos (e o tempo parece ser a questão mais recorrente em sua obra), Iberê admite um tratamento mais veloz das imagens. Uma sintetização das formas que parece apreender o modelo de seu interior - mais uma lição do desenho. A linha em seus desenhos e guaches é cada vez mais mergulhada na imprimatura que banha o papel de tons translúcidos: antevemos aqui o momento da pintura na fluidez sensual da matéria e da cor que começa a surgir.

A matéria e o gesto
Iberê Camargo tinha o hábito de trabalhar diretamente do real, com o modelo à sua frente numa situação de confrontação. A energia e a tensão empregadas durante o trabalho demonstra a tentativa de sincronizar intuição e ação. É preciso agir com decisão e não perder a espontaneidade do gesto; não deixar escapar a oportunidade que cada instante oferece de representar a vida em seu curso: "No ato criador, sou arrastado por impulsos que se desencadeiam como vendavais vindos não sei de onde". Essa vontade de precipitação, de ver formado o momento antes mesmo que ele se apresente, fazia parte de seu modo de ser: "Sempre me considero o mesmo. Devo, etretanto, confessar que, quando corro nas manhãs de sol no Parque da Redenção, noto que a minha sombra não acompanha meu 'tranco', ela corre muito devagar."

A pintura de Iberê é caracterizada por um campo denso de matéria depositada camada por camada sobre a tela. Uma sedimentação nervosa que deixa entrever os indícios da passagem do pintor, a memória de seus gestos. São campos de cor palpáveis que se projetam para fora do plano da tela, tamanho é o apelo tátil da matéria ali presente. Por vezes, golpes de espátula subtraem, ferem essas camadas escavando linhas que formam o contorno das figuras. A memória do gesto gráfico ressurge, assim, unida à massa da pintura; resultado de uma urgência expressiva que ora constrói, ora destrói.

Reencontramos nessas linhas que "amarram" a composição, o trabalho de Sísifo, a aventura sem fim do ato de criação: quando Iberê risca as camadas de tinta, ele acaba revelando o branco da tela, o momento inicial do trabalho. Passado e presente se encontram nessa metáfora: "Como se vê, a criação se faz com o agora e com o tempo que recua".

Flávio Gonçalves, artista e professor do Instituto de Artes da UFRGS, em agosto de 2001
 
 
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