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  Iberê Camargo: caminhos de uma poética

"Tenho sempre presente que a renovação é uma condição da vida. Nunca me satisfaz o que faço. Vejo nisso um estímulo permanente à criação. Ainda sou um homem a caminho."
Iberê Camargo

Desvendar a arte de Iberê Camargo significa percorrer muitos dos mais fascinantes e complexos caminhos da descoberta. Suas obras aguardam o nosso olhar e propõem todo um mundo de expressão e de vontade, através de manchas e de grafismos superpostos, cores e pinceladas veementes, mas dependem especialmente daquilo que nós desejamos ver. Por essa razão, essas obras passam a viver diferentemente em cada um de nós, com todas as nossas fantasias, sentimentos e conhecimentos. Contudo, não é em nosso mundo que imergimos: é no do artista; é a sua obra que nos convida a visitá-la. Nada nesse processo é estanque. Ao contrário, estamos inseridos em um espaço de relações.

Pensando nelas, em todas as ricas facetas que envolvem a experiência de uma exposição de Iberê Camargo, delineamos uma aproximação à identidade da sua obra. Buscamos primeiro, com esse recorte, mesmo que deslocados no tempo, paradoxalmente sermos contemporâneos a ela. Isso quer dizer: apreender em profundidade, e através das marcas deixadas, o seu vivo processo de trabalho, as verdades e interrogações da sua elaboração. Essa nos permite ir muito além da simples contemplação das telas concluídas e dos desenhos acabados; ela nos possibilita vivenciar cada momento de seu processo, procurando acompanhar o que ele sentiu, compreender o que ele pensou, enfim, tentar refazer com ele, mas agora à maneira de cada um, esses caminhos - sempre de renovação como condição da vida, como ele mesmo sugeriu. Mas não é só: conhecer a obra de Iberê é também pensar na dimensão artística da sua obra em seus diversos ângulos, os que ultrapassam o sentido apenas individual - o significado dos momentos que ele escolheu entre a figuração e a abstração, o da técnica pastosa e o das obsessivas superposições de camadas de pintura, a potência sensível da cor, a escolha expressiva dos seus personagens, os limites da tela, entre tantos outros elementos; é procurar identificar a constituição simbólica da obra deste artista que a situou no contexto da pintura moderna brasileira.

Para isso, os esboços, em justaposição às obras concluídas, podem desvendar novos valores. Eles não apenas perfazem o caminho do artista até a obra, mas mostram-se eles mesmos, obras. Descobre-se, com surpresa, que inúmeros despretensiosos desenhos ao modo de rascunhos trazem uma forte busca de apreensão da vida. São como que o impacto dos instantes que se esvaem céleres no tempo. É como se o artista tentasse segurá-los no papel, em seu esforço para conhecer e plasmar a existência. Não escondia que trabalhava com paixão, com ímpeto, com emoção incontida, às pressas . Mas essa pressa ele encarnava em seu gesto ágil, em cada pincelada, em cada obra, como se indagasse obstinadamente o significado do tempo. Cada pequeno estudo, freqüentemente repleto de sobreposições, acabava concluindo-se em uma obra maior. Era uma procura incessante para cercar o que via ou imaginava, um lugar onde as figuras ou formas entravam em questão entre os limites do suporte, tido muitas vezes como provisório. Não há nesses croquis nenhuma pretensa e esperada ordem no espaço; há sim, um ato inquieto e incansável de rasgar o definitivo, de tentar trazer a vida para dentro da arte. «Para mim, arte e vida confundem-se» , afirma Iberê. Repetindo as rápidas e incompletas personagens, multiplicadas sobre a superfície, ele faz-nos evocar, através delas, os primeiros desenhos da humanidade. Questionam-se assim, simultaneamente, o passado e o presente, a imprecisão e a definição, o provisório e o definitivo, a arte e a vida. Muitos podem ser os contrapontos por toda a sua obra que nos conduzem a tantas indagações. Pergunta-se, pois, que transformações apresentou Iberê Camargo em uma temática em particular e na sua arte em geral? De que modo os esboços, por exemplo, sobre os seus ciclistas, acabam por se configurar em sua pintura? Como chegam eles a possuir uma densidade em si mesmos, independentemente dos grandes óleos que lhes são semelhantes? Haverá alguma diferença qualitativa entre os croquis e as obras concluídas? Ou melhor, o que faria a diferença de valor: a variação da técnica ou quem sabe seriam as categorias que o mundo artístico atribuiu a ela?

Considerando esse questionamento possível, foram selecionados alguns dos mais importantes núcleos temáticos da obra de Iberê - os dos ciclistas, retratos e auto-retratos, paisagens, carretéis, e suas grandes telas finais - que passam a ser revistos em seus desdobramentos através dos diversos esboços. Os croquis trazem o embrião de outros caminhos que talvez o artista nem tenha chegado a reconhecer. A multiplicidade de perspectivas para perceber as obras revela-se como ponto instigante para experenciar o trabalho do artista. A atenção a elas torna-se mais densa ao examinar de que modo Iberê fez as suas opções, desenvolveu seus estudos até chegar a determinadas soluções. É sempre uma produção em movimento, como foi também o seu gesto, sempre dinâmico, sutil, ao mesmo tempo vigoroso. A idéia de transformação das suas obras vem a ser tão importante como é a de sua definição.

Por outro lado, a fértil produção do pintor traz consigo um outro veio poderoso: o contato com os ilimitados meandros técnicos das diferentes propostas. Em arte, declara o artista, «o importante é aprender a linguagem e formar um vocabulário. Dono desta língua, pouco importa que a fala seja o óleo, o metal ou a pedra» . Os óleos de Iberê são as obras mais conhecidas: por essa razão, propiciar a convivência dos diversos modos de tratar a matéria traz à tona aspectos que dizem respeito à própria natureza da sua arte. A interferência das pinceladas nervosas na tela, os rasgos da espátula firme, o desenho seguro na pedra, o lápis que corre solto pelas superfícies em papel, ou as aguadas em matizes têm um lugar fundamental para se perceber a obra do artista.

Diante da produção de Iberê Camargo, é impossível deixar de vê-la como um dos momentos cruciais da pintura no Brasil. Ele soube, como ninguém, em sua ânsia de trazer o seu interior para além de si e também para além da sua arte, a sua visão trágica da vida, a sua revolta e o seu amor, o seu desprezo e o seu sarcasmo em relação ao mundo no qual viveu. Extrapolou o espaço pessoal e passou para a história da arte com seu intrincado processo e produto artísticos. Nascido na serena paisagem de Restinga Seca, ainda distanciada das idéias do expressionismo internacional, soube, sem buscar as falsas classificações, fazer a sua arte, sempre autêntica, voltada ao seu cotidiano e à sua verdade, sempre enriquecida de um conjunto de questões profundas que põem em xeque a natureza artificial da própria arte. Cabe a nós descobrir os passos da descoberta, respeitando fielmente o que as obras de Iberê esperam de nós, sem jamais esquecermos que, deixando-se de lado a ótica linear, sua arte encontra seu verdadeiro lugar, entre os inúmeros caminhos que ela mesma propõe.

Mônica Zielinsky, historiadora e crítica de arte, professora do Instituto de Artes da UFRGS, em maio de 2000
 
 
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