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  Iberê Camargo – Persistência do Corpo

Como primeiro evento do Programa Exposições do Acervo, depois da abertura da Fundação Iberê Camargo, a curadoria, valendo-se exclusivamente de obras pertencentes ao acervo desta instituição, buscou um recorte visando propiciar ao espectador uma perspectiva multifocal em seu contato com as obras selecionadas. Elaborado a partir desse olhar, a curadoria apresenta ao visitante um leque ampliado de possibilidades para que cada um construa sua rede de sentidos.

Somado a esse direcionamento, esteve também vigente o interesse em que esta mostra contemplasse a complexidade da produção de Iberê Camargo, sem recorrer a uma panorâmica. Considerando essas metas, elegemos três vetores para articulação do argumento curatorial: 1) a figuração centrada na exploração do corpo humano; 2) pintura e desenho; 3) década de 1980, adotando a obra Fantasmagoria IV como deflagradora de uma gama de relações estéticas, que implodem os limites da linearidade cronológica.

Ao conceber o percurso pela exposição como um ensaio visual, ressaltamos o fato de a disposição dos desenhos e das pinturas no recinto também não obedecer a nenhum critério cronológico. Pelo contrário, as aproximações foram embasadas em analogias formais, estéticas e temáticas, em alguns casos buscando provocar um estranhamento ao relacionar trabalhos de períodos ou propósitos bastante distintos. Isso pode ser percebido no conjunto de desenhos de mesma temática – nu feminino – executados com a diferença de quarenta anos entre si, e que situados lado a lado dialogam de maneira instigante.

Assim, a proposta subjacente trouxe um conjunto significativo de desenhos – muitos de caráter plástico-pictórico – que, colocado ao lado de pinturas, pretende contribuir para maior compreensão da obra e da trajetória de Iberê Camargo. É de onde decorre a opção por associar estudos, esboços, croquis, desenhos, pinturas inacabadas como é o caso da tela de Gelson Radaelle e obras assumidas pelo artista como produtos finalizados e aptos a enfrentar o olhar exigente dos pares e do público. Diante destes desenhos e pinturas pode-se refletir sobre a persistência dos processos investigativos de Iberê Camargo, sobre o seu embate com o suporte, sobre a expressividade manifesta no gesto, sobre a busca da forma sem que esta recaísse em um esteticismo vazio.

Por outro lado, o visitante talvez pergunte pela ausência da gravura, técnica na qual Iberê Camargo igualmente se notabilizou, sendo um dos nomes referenciais para a história desse gênero na arte brasileira. Como esta exposição é assumidamente um recorte pontual em relação ao extenso acervo do artista, agregado ao fato de que as últimas exposições e o mais recente Catálogo Raisonné (1) abordaram o segmento da gravura, a curadoria neste momento serviu-se da oportunidade para focar sua atenção nos desenhos. Estes vistos como obras que revelam a excelência gráfica do artista, o que, sem dúvida, repercute em suas pinturas especialmente nas séries: Fantasmagoria, Personagens e Manequins.

A figuração em Iberê Camargo esteve por momentos adormecida, o que se pode constatar, sobretudo, quando seus carretéis, marca de seu primeiro reconhecimento nos anos sessenta, perderam os resquícios de sua identidade. Iberê, contrariando a abstração formal dominante entre os artistas brasileiros da época – de cunho construtivo –, obteve o reconhecimento de sua pintura associada ao expressionismo abstrato. Rótulo do qual ele se esquivava, afirmando nunca ter abandonado a figura. A confirmar essa postura, está o fato de o retorno do artista a Porto Alegre, nos anos 80, coincidir com o emprego que faz da figuração em livre e dinâmico tratamento matérico da cor e de intensa gestualidade, o que o situa como um referencial nesse campo, favorecendo a aproximação da nova geração de artistas que, na pintura, buscavam seus caminhos.

É de suma importância trazer a público as múltiplas possibilidades de interpretações viáveis a cada vez que o acervo de Iberê é “trabalhado”, seja através de uma obra isolada ou de seu conjunto, pois pode despertar novos olhares, tanto aos iniciantes como aos mais experientes.

Merece destacar que a Fundação Iberê Camargo, ao se tornar o primeiro espaço em Porto Alegre a ser construído respondendo às necessidades de seu patrimônio artístico, recebe também a incumbência de conquistar seus eventuais visitantes para que se tornem assíduos usuários deste espaço cultural.

Ana Maria Albani de Carvalho e Blanca Brites

1 Elaborado pela pesquisadora e responsável pelo Acervo Documental da FIC, Mônica Zielinsky.
 
 
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